O medo, a vergonha e a dependência emocional estão entre os fatores que podem dificultar o rompimento de um relacionamento abusivo. Para Taiza Tosatt Eleoterio, psicanalista com atuação em saúde mental e relações familiares, quando uma mulher enfrenta violência doméstica, a decisão de sair da relação não depende apenas de reconhecer que existe um problema. Questões afetivas, financeiras, familiares e de segurança também podem influenciar suas possibilidades de escolha.
Uma análise publicada em 2023 na Revista Latino-Americana de Psicopatologia Fundamental discute justamente a permanência em relações abusivas a partir de conceitos psicanalíticos. Desse modo, percebe-se que compreender essas dificuldades é importante para que o acolhimento não se transforme em julgamento. A pergunta sobre por que uma mulher permanece em uma relação violenta precisa considerar sua história e as condições concretas em que vive.
O medo não se limita à violência física
Em uma relação abusiva, o medo pode assumir diferentes formas. A mulher pode temer novas agressões, ameaças contra os filhos, dificuldades financeiras ou a reação do parceiro diante de uma tentativa de separação. A violência psicológica também pode envolver humilhações, controle, isolamento e desvalorização, comportamentos que comprometem a autonomia e a percepção que a pessoa tem de si mesma.
Esse contexto ajuda a compreender por que conselhos como “basta ir embora” não respondem à complexidade da situação. A decisão de romper pode exigir planejamento, apoio e acesso a recursos de proteção. A análise psicanalítica contribui para investigar como o medo, os vínculos afetivos e os conflitos subjetivos participam da experiência de quem sofre, sem atribuir à vítima a responsabilidade pela violência.
Como a vergonha favorece o isolamento?
A vergonha pode dificultar o pedido de ajuda. Algumas mulheres temem ser desacreditadas, criticadas pela família ou responsabilizadas pela permanência no relacionamento. Outras podem sentir que revelar o que acontece em casa significa expor uma situação que gostariam de preservar em segredo. Uma revisão de literatura publicada em 2024 identificou o medo das críticas e a vergonha como fatores associados à permanência em relações violentas.
Na perspectiva de Taiza Tosatt Eleoterio, o acolhimento precisa abrir espaço para que a mulher fale sobre sua experiência sem ser pressionada a apresentar respostas imediatas. Escutar não significa concordar com a violência ou ignorar seus riscos. Significa reconhecer que a pessoa pode estar enfrentando sentimentos contraditórios e obstáculos que não são visíveis para quem observa a situação de fora.
Dependência emocional e vínculos difíceis de romper
A dependência emocional é outro aspecto que pode aparecer em relacionamentos abusivos. Ela envolve uma necessidade intensa de aprovação, segurança ou validação afetiva do parceiro. Em determinadas circunstâncias, a pessoa pode ter dificuldade para imaginar a própria vida sem aquele vínculo, mesmo quando a relação provoca sofrimento. Um estudo publicado na revista Psicologia USP em 2024 relacionou a dependência emocional a sentimentos como culpa, medo do abandono e vazio emocional.
A psicanálise procura compreender como cada pessoa estabelece seus vínculos, interpreta suas experiências e atribui significado ao amor e à perda. Isso não significa afirmar que toda mulher em uma relação abusiva apresenta dependência emocional, nem que essa condição explica sozinha a violência. A contribuição está em investigar a singularidade da experiência, sem transformar uma hipótese de compreensão em diagnóstico.
O papel do acolhimento no processo de ruptura
Romper com uma relação abusiva pode ser um processo gradual, marcado por avanços, dúvidas e dificuldades práticas. O suporte de pessoas de confiança, serviços especializados e instituições de proteção pode ajudar a reduzir o isolamento e ampliar as possibilidades de ação. A assistência psicológica ou psicanalítica, quando acessível e adequada à demanda, pode oferecer um espaço de escuta para elaborar o sofrimento e reconstruir referências pessoais.
Nesse sentido, a atuação de profissionais como Taiza Tosatt Eleoterio pode ser compreendida dentro de uma abordagem que valoriza a escuta das mulheres e das famílias em situação de vulnerabilidade. O acompanhamento não substitui medidas de segurança, orientação jurídica ou assistência social. Cada uma dessas frentes responde a necessidades diferentes, e sua articulação pode ser importante para enfrentar a violência de maneira mais ampla.
Redes de apoio ajudam a reconstruir a autonomia
O rompimento não encerra necessariamente os efeitos de uma relação abusiva. Podem permanecer inseguranças, dificuldades de confiança e preocupações relacionadas à moradia, à renda ou aos filhos. Por isso, reconstruir a autonomia exige mais do que uma decisão individual: depende também de condições materiais e de relações de apoio que respeitem o tempo e as necessidades de cada mulher.
Taiza Tosatt Eleoterio conclui ao mencionar que a reflexão sobre medo, vergonha e dependência emocional permite substituir julgamentos apressados por uma compreensão mais cuidadosa. Em vez de perguntar por que alguém não saiu antes, familiares, amigos e profissionais podem perguntar de que maneira é possível oferecer apoio seguro. Essa mudança de perspectiva é fundamental para que o acolhimento contribua, de fato, para a proteção e para a construção de novos caminhos.

