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Inteligência artificial e realidade aumentada começam a mudar o planejamento de cirurgias odontológicas

Kiril ValenkoPor Kiril Valenkosetembro 23, 2026Nenhum comentário7 Mins Read
Inteligência artificial e realidade aumentada começam a mudar o planejamento de cirurgias odontológicas
Inteligência artificial e realidade aumentada começam a mudar o planejamento de cirurgias odontológicas

Revisão publicada em setembro aponta avanços em navegação digital, mas mostra que a IA ainda atua principalmente antes do procedimento.

A tecnologia odontológica está entrando em uma nova fase: além de produzir imagens digitais e próteses, ferramentas computacionais começam a participar diretamente do planejamento de procedimentos clínicos. Uma revisão científica publicada em setembro de 2026 analisou o uso de realidade aumentada (RA), realidade mista (RM) e inteligência artificial (IA) em procedimentos odontológicos e encontrou resultados especialmente relevantes em implantodontia, ortodontia e endodontia. O estudo, realizado por pesquisadores ligados à São Leopoldo Mandic e à Universidade de São Paulo, avaliou 15 trabalhos selecionados entre 1.457 registros científicos. (PubMed)

A descoberta ajuda a responder uma dúvida cada vez mais comum entre dentistas e pacientes: a inteligência artificial já consegue participar de uma cirurgia odontológica ou ainda depende da decisão humana? A resposta encontrada pela literatura mais recente é mais equilibrada do que a promessa de uma odontologia totalmente automatizada. A IA aparece principalmente em tarefas preparatórias, enquanto sistemas de realidade aumentada e mista já são estudados como recursos de visualização e navegação durante determinados procedimentos. (PubMed)

Realidade aumentada pode aumentar a precisão em procedimentos odontológicos

A revisão publicada no Journal of Dentistry mostra que a realidade aumentada e a realidade mista estão sendo investigadas como ferramentas auxiliares para orientar procedimentos odontológicos. Na implantodontia, por exemplo, sistemas de navegação dinâmica baseados em realidade mista apresentaram, em alguns estudos, precisão submilimétrica, incluindo um desvio tridimensional de entrada de 0,417 milímetro. Os autores também encontraram evidências de melhora na precisão angular durante a instalação de mini-implantes ortodônticos, com ganhos de até 72% entre operadores inexperientes em um dos conjuntos de resultados analisados. (PubMed)

O conceito é diferente de simplesmente utilizar uma radiografia ou uma tomografia durante o planejamento. A realidade aumentada pode sobrepor informações digitais ao campo de trabalho, enquanto a realidade mista permite integrar elementos virtuais e informações do ambiente real para auxiliar a orientação espacial. Em procedimentos nos quais milímetros podem alterar a trajetória planejada, sistemas de navegação podem oferecer ao profissional uma referência adicional durante a execução. Isso não significa que o equipamento opere sozinho ou que o cirurgião-dentista deixe de controlar o procedimento: na literatura analisada, essas tecnologias aparecem como ferramentas auxiliares de visualização e navegação. (PubMed)

O potencial é particularmente interessante para áreas nas quais planejamento tridimensional e posicionamento preciso têm papel importante. A revisão identificou aplicações em implantodontia, mini-implantes ortodônticos, acesso endodôntico e preparo dentário, com relatos de maior conservação de tecido em alguns procedimentos. Entretanto, os resultados não foram uniformes em todas as aplicações: na instalação de implantes zigomáticos, por exemplo, a técnica convencional não foi superada em precisão apical ou angular, e a melhora observada ocorreu quando havia estabilização robótica associada. (PubMed)

Isso mostra por que a tecnologia precisa ser analisada caso a caso. Um sistema que apresenta bons resultados em determinado procedimento não pode ser automaticamente considerado superior para todas as especialidades ou situações clínicas. Para o paciente, a existência de uma tecnologia de navegação não significa que ela seja necessariamente indicada para seu tratamento; a decisão depende da avaliação do cirurgião-dentista, das características do caso e da disponibilidade de recursos adequados.

Inteligência artificial ainda está mais concentrada no planejamento

Um dos resultados mais importantes da pesquisa está justamente na diferença entre o que a inteligência artificial já faz e o que ainda pertence ao campo experimental. Segundo a revisão, a IA apareceu em apenas uma parcela dos estudos analisados e, quando estava presente, foi utilizada principalmente em etapas preparatórias. Entre as funções identificadas estão segmentação automatizada de imagens, registro de diferentes conjuntos de dados e apoio ao planejamento. (PubMed)

Na prática, isso significa que a IA pode ajudar a transformar grandes quantidades de informações de exames em dados mais organizados para o profissional analisar. Uma imagem odontológica pode conter estruturas anatômicas complexas e exigir diferentes etapas de interpretação, e algoritmos podem auxiliar em tarefas específicas dentro desse fluxo. O uso de inteligência artificial, porém, não transforma automaticamente uma sugestão computacional em diagnóstico ou indicação de tratamento. O próprio Conselho Federal de Odontologia já destacou que ferramentas de IA podem atuar como recursos complementares, mas não substituem o cirurgião-dentista e sua avaliação individualizada do paciente. (CFO)

Essa distinção será cada vez mais importante à medida que softwares odontológicos incorporarem recursos de inteligência artificial. Para o profissional, saber utilizar uma ferramenta não significa apenas aprender quais botões apertar, mas compreender o que o sistema está analisando, quais são suas limitações e como verificar seus resultados. Questões relacionadas à qualidade dos dados, validação clínica, privacidade das informações e responsabilidade profissional também precisam acompanhar a expansão dessas tecnologias.

A própria literatura recente reforça essa cautela. Os autores da revisão afirmam que grande parte das evidências disponíveis ainda vem de estudos in vitro e de provas de conceito, o que demonstra viabilidade técnica, mas não estabelece automaticamente eficácia clínica consolidada. Eles apontam a necessidade de ensaios multicêntricos randomizados e validação independente antes que essas tecnologias possam ser consideradas definitivamente estabelecidas para adoção clínica ampla. (PubMed)

Esse ponto é especialmente relevante para pacientes que encontram propagandas de clínicas apresentando IA, realidade aumentada ou navegação digital como sinônimo de tratamento superior. Tecnologia é uma ferramenta, e não uma garantia isolada de resultado. A escolha de um tratamento odontológico deve continuar sendo feita após avaliação individual por cirurgião-dentista habilitado, considerando diagnóstico, indicação clínica, riscos, benefícios e alternativas disponíveis.

O futuro da odontologia será cada vez mais integrado ao fluxo digital

A pesquisa recente não representa apenas uma evolução de equipamentos específicos, mas indica uma transformação mais ampla na maneira como diferentes tecnologias podem trabalhar juntas. Scanner intraoral, tomografia, softwares de planejamento, inteligência artificial, realidade aumentada, realidade mista e impressão 3D podem formar diferentes etapas de um mesmo fluxo digital. O objetivo passa a ser conectar captura de dados, planejamento e execução com maior precisão e rastreabilidade, em vez de tratar cada equipamento como uma solução isolada.

No Brasil, essa transformação já ultrapassa o ambiente das clínicas particulares. O Ministério da Saúde anunciou a incorporação de tecnologias de fluxo digital ao Brasil Sorridente, incluindo scanners intraorais e impressoras 3D para a produção de próteses dentárias, enquanto o CFO discutiu com o Ministério da Saúde a necessidade de protocolos e capacitação para a implantação dessa tecnologia na rede pública. (CFO) O movimento mostra que a odontologia digital começa a ser discutida também como uma questão de acesso e organização do atendimento, e não somente como um diferencial tecnológico de consultórios privados.

Para os dentistas, essa mudança pode ampliar a importância da formação em odontologia digital. O profissional do futuro poderá precisar compreender não apenas anatomia, diagnóstico e técnicas clínicas, mas também aquisição de imagens, integração de arquivos, planejamento tridimensional, funcionamento de algoritmos e critérios para validação das ferramentas utilizadas. Ao mesmo tempo, a adoção tecnológica exige atenção às normas sanitárias e aos requisitos aplicáveis aos dispositivos médicos, já que a Anvisa mantém regras específicas para segurança, desempenho e regularização desses produtos. (Serviços e Informações do Brasil)

Para os pacientes, a principal mudança pode ser uma experiência cada vez mais integrada e visual do tratamento. O planejamento tridimensional pode facilitar a comunicação entre profissional e paciente, enquanto tecnologias digitais podem permitir que determinadas etapas sejam planejadas e produzidas com maior integração. Mas a digitalização não elimina a necessidade de consulta, exame clínico e decisão profissional. Mesmo quando uma ferramenta de IA ou realidade aumentada participa do processo, o acompanhamento do cirurgião-dentista continua essencial para interpretar os dados e definir a conduta adequada.

A evidência publicada em setembro indica, portanto, que a odontologia já está testando uma combinação poderosa de inteligência artificial, realidade aumentada e realidade mista, mas ainda não chegou ao cenário de uma clínica comandada por algoritmos. O momento atual é de transição: algumas aplicações apresentam resultados técnicos promissores, enquanto outras ainda precisam de estudos clínicos mais robustos. Para os profissionais brasileiros, acompanhar essa evolução significa preparar-se para um mercado cada vez mais digital sem abandonar os fundamentos clínicos; para os pacientes, significa compreender que tecnologia pode ampliar as ferramentas do dentista, mas não substitui uma avaliação odontológica individualizada.

Fontes verificáveis: PubMed — revisão sobre realidade aumentada, realidade mista e inteligência artificial em procedimentos odontológicos · CFO — posicionamento sobre inteligência artificial e atuação do cirurgião-dentista · CFO — fluxo digital de próteses odontológicas no SUS · Anvisa — normas técnicas para dispositivos médicos (PubMed)
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Kiril Valenko
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