Os problemas bucais continuam sendo um dos maiores desafios de saúde pública no Brasil e isso reflete diretamente na vida de milhões de brasileiros em todas as faixas etárias. Ao longo de muitos anos, pesquisas nacionais de saúde bucal revelaram que desde a infância até a terceira idade uma parte significativa da população apresenta algum tipo de lesão dentária que envolve desgaste de estruturas dentárias devido à ação de bactérias alimentadas por açúcares na dieta e outros fatores ambientais. Esse cenário preocupante tem impacto direto não apenas na integridade dos dentes, mas também no bem-estar físico e emocional das pessoas, afetando sua capacidade de mastigar, falar e interagir socialmente, o que por sua vez pode comprometer a autoestima e a confiança no convívio diário.
A formação da doença bucal é um processo gradual e silencioso que começa com a acumulação de um biofilme bacteriano sobre as superfícies dentárias, resultado da interação entre restos alimentares, especialmente de carboidratos fermentáveis e bactérias da cavidade oral. Quando a higiene bucal não é adequada ou quando os hábitos de vida favorecem o desequilíbrio dessa microflora, a estrutura dental começa a ser desmineralizada por ácidos produzidos por esses microrganismos. Na fase inicial, essa deterioração não costuma causar sintomas dolorosos, o que leva muitas pessoas a negligenciarem a visita ao dentista até que o problema esteja em estágio mais avançado. Esse processo que se arrasta ao longo do tempo, combinado com a falta de acompanhamento profissional regular, pode progredir para estágios em que a própria estrutura do dente fica tão comprometida que a única solução possível é a sua remoção.
O abandono dos cuidados básicos de higiene, como escovação adequada e uso de fio dental, tem papel central neste ciclo de deterioração. A placa bacteriana que se forma e se acumula entre os dentes e na linha da gengiva é um componente essencial para o desenvolvimento de lesões que debilitam o dente ao longo do tempo. Essas lesões, quando não tratadas, progridem de simples manchas ou cavidades na superfície dental para infiltrações mais profundas que alcançam camadas internas do dente, levando à inflamação dos tecidos e tornando a estrutura cada vez mais frágil. Somado a isso, fatores comportamentais, como consumo frequente de alimentos ricos em açúcares, hábitos de vida inadequados e falta de visitas periódicas ao odontologista, intensificam a deterioração dos dentes e aceleram a necessidade de intervenções mais drásticas.
Esse processo de degradação estrutural dos dentes repercute não apenas no aspecto funcional mas também na saúde geral do indivíduo. A ausência de dentes compromete a eficiência da mastigação, o que pode desencadear problemas digestivos e nutricionais, além de alterar a forma como as forças mastigatórias são distribuídas, levando ao desgaste irregular de dentes remanescentes e afetando a articulação temporomandibular. Com a perda de dentes, a estética do sorriso muda, impactando de forma significativa a forma como a pessoa se percebe e é percebida, interferindo em sua sociabilidade e autoestima. Esses efeitos cumulativos tornam evidente que a saúde bucal está intimamente ligada à saúde física e emocional, e que sua manutenção deve ser tratada como uma prioridade contínua.
Outro aspecto que merece atenção é a desigualdade no acesso aos serviços de saúde bucal no país, uma vez que grande parte da população ainda enfrenta dificuldades para realizar atendimentos preventivos ou tratamentos iniciais. Dados de pesquisas nacionais de saúde bucal revelam que muitos brasileiros consultam um dentista apenas quando enfrentam sintomas dolorosos ou complicações evidentes, quando o problema já está em estágio avançado. Essa falta de acesso ou de hábito de procurar cuidados precoces contribui diretamente para a piora das lesões e para a necessidade de tratamentos mais invasivos e onerosos, incluindo extrações dentárias e próteses, que poderiam ser evitados com intervenções mais simples e oportunas.
A prevenção é um elemento fundamental para interromper esse ciclo de deterioração e melhorar os indicadores de saúde bucal no Brasil. Práticas como escovar os dentes após as principais refeições com um creme dental que contenha agentes que fortalecem a superfície dental, utilizar fio dental diariamente para remover restos alimentares onde a escova não alcança, e visitar um dentista regularmente para avaliações e limpezas profissionais são essenciais. Além disso, mudanças no estilo de vida, como reduzir a ingestão de açúcares e carboidratos fermentáveis e adotar hábitos de alimentação mais equilibrados, podem reduzir a incidência de lesões dentárias e retardar ou evitar o avanço do problema.
O papel da educação em saúde também é crucial: conscientizar a população sobre os riscos de negligenciar a higiene bucal e incentivar a criação de rotinas de cuidado diário ajudaria a mudar a percepção de que visitas ao dentista são necessárias apenas em casos de dor ou desconforto evidente. Promover campanhas que enfatizem a importância de intervenções precoces e que demonstrem como ações simples no cotidiano podem preservar os dentes e evitar complicações futuras é um passo importante para fortalecer a cultura de prevenção e cuidado contínuo.
Finalmente, a integração entre políticas públicas, profissionais de saúde e a sociedade civil pode promover um ambiente mais favorável à manutenção da saúde bucal ao longo da vida. Investir em estratégias de educação, facilitar o acesso a tratamentos preventivos, ampliar a rede de serviços odontológicos em áreas carentes e fortalecer programas de cuidado regular podem alterar o curso de muitas vidas. Essas ações colaborativas têm o potencial de reduzir de forma significativa os impactos negativos da deterioração dentária, melhorando a qualidade de vida dos brasileiros e fortalecendo a compreensão de que a manutenção da saúde dos dentes vai muito além da estética, sendo um componente essencial para o bem-estar geral.
Autor : Usman Inarkaevich

