Novos editais querem aproximar cooperativas, empresas e centros de pesquisa para desenvolver máquinas, processos e soluções mais eficientes no campo.
A inovação tecnológica começa a ganhar espaço em uma área que durante muito tempo foi associada principalmente ao trabalho manual: a agricultura familiar. Em 22 de setembro, a Finep anunciou R$ 220 milhões para financiar projetos voltados à modernização desse segmento, em uma iniciativa realizada em parceria com o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar. Os recursos fazem parte do programa Coopera Mais Brasil Tecnologias e serão direcionados a empresas e instituições científicas que desenvolvam soluções em parceria com cooperativas. (Fale Conosco)
A novidade chama atenção porque não se limita à compra de equipamentos prontos. A proposta é financiar o desenvolvimento de máquinas, processos e tecnologias adaptadas às necessidades reais dos produtores, incluindo soluções para processamento de alimentos, pesca artesanal, eficiência energética e aproveitamento de resíduos. Para o leitor interessado no futuro da economia brasileira, a questão central passa a ser outra: como a inovação pode chegar a propriedades menores e transformar a produção sem exigir que o agricultor familiar simplesmente copie o modelo das grandes empresas?
R$ 220 milhões colocam o agricultor familiar dentro da agenda de inovação
Os recursos anunciados pela Finep estão divididos em dois editais. O primeiro, de R$ 120 milhões, é destinado a empresas de qualquer porte interessadas em desenvolver tratores de pequeno porte, máquinas, equipamentos e sistemas de processamento e beneficiamento de produtos agrícolas. Também estão incluídas tecnologias para a pesca artesanal, como embarcações mais eficientes, sistemas de refrigeração de baixo consumo e caixas isotérmicas. Para participar, as empresas precisam estar associadas a cooperativas de agricultura familiar que participem ativamente do desenvolvimento das soluções. (Fale Conosco)
O segundo edital reserva R$ 100 milhões para Instituições Científicas, Tecnológicas e de Inovação, públicas ou privadas sem fins lucrativos. Nesse caso, os projetos também precisam envolver cooperativas e podem buscar aumentar a tecnificação dos agricultores, agregar valor aos produtos, melhorar o aproveitamento de resíduos ou elevar a eficiência energética das atividades. A lógica muda de maneira importante: em vez de desenvolver uma tecnologia distante da realidade do campo e tentar vendê-la depois, o programa cria uma estrutura para que o próprio usuário participe da identificação do problema e da construção da solução. (Fale Conosco)
Essa característica pode ser decisiva para a chamada inovação inclusiva. Uma máquina desenvolvida para uma propriedade de grande escala nem sempre atende às condições financeiras, físicas ou operacionais de pequenos produtores, enquanto uma solução projetada especificamente para cooperativas pode considerar tamanho da propriedade, disponibilidade de energia, logística, mão de obra e características regionais. O modelo também aproxima três atores que normalmente trabalham em ritmos diferentes: quem produz, quem pesquisa e quem transforma conhecimento em produto ou serviço. O resultado esperado não é apenas uma agricultura mais tecnológica, mas um ecossistema em que conhecimento científico possa gerar aplicações econômicas diretamente relacionadas às necessidades dos territórios.
Tecnologia no campo pode reduzir desperdício e aumentar eficiência
Uma das partes mais relevantes da iniciativa está justamente nas tecnologias que não aparecem necessariamente como grandes máquinas futuristas. Sistemas de refrigeração de menor consumo, equipamentos de processamento, soluções para reaproveitamento de resíduos e tecnologias capazes de reduzir perdas depois da colheita podem produzir efeitos econômicos e ambientais simultaneamente. Em uma cadeia de alimentos, melhorar uma etapa aparentemente pequena pode significar conservar produtos por mais tempo, agregar valor antes da venda e diminuir a quantidade de matéria-prima descartada. A inovação, nesse caso, passa a funcionar como instrumento de eficiência e sustentabilidade.
Esse movimento também dialoga com uma tendência maior da transformação digital e industrial brasileira: adaptar tecnologias avançadas para diferentes escalas de produção. Sensores, automação, sistemas de monitoramento, análise de dados e equipamentos energeticamente eficientes podem ser incorporados gradualmente, desde que tenham custo e complexidade compatíveis com a realidade de quem vai utilizá-los. O financiamento anunciado pela Finep não determina que todas essas tecnologias sejam digitais, mas cria espaço para que empresas e instituições desenvolvam soluções tecnológicas específicas para os desafios da agricultura familiar. (Fale Conosco)
O desenho dos editais ainda revela uma preocupação com a redução da dependência externa. Segundo a Finep, o programa está alinhado ao Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico e busca contribuir para a modernização da engenharia agrícola brasileira, inclusive com redução da dependência de componentes externos e criação de infraestrutura sustentável para pequenos produtores. (Fale Conosco) Isso é estratégico em um cenário no qual cadeias produtivas globais podem sofrer interrupções, mudanças de preços ou restrições de acesso a componentes tecnológicos. Desenvolver capacidade nacional não significa produzir tudo internamente, mas ampliar competências, fornecedores, conhecimento e alternativas disponíveis para empresas e produtores brasileiros.
O que muda para empresas, pesquisadores e cooperativas daqui para frente
Para empresas de tecnologia, máquinas agrícolas e equipamentos, o programa abre uma possibilidade concreta de desenvolver produtos a partir de demandas identificadas no campo. As propostas empresariais terão valores entre R$ 5 milhões e R$ 20 milhões, com submissão em fluxo contínuo até 30 de abril de 2027 e exigência de participação de cooperativas. Já as instituições científicas poderão apresentar projetos entre R$ 3 milhões e R$ 15 milhões, com prazo de submissão até 8 de dezembro de 2026. (Fale Conosco)
A diferença entre os dois modelos também indica que o futuro da inovação agrícola dependerá de uma ponte mais forte entre pesquisa e aplicação prática. Universidades e centros de pesquisa podem contribuir com conhecimento científico, prototipagem e validação, enquanto empresas possuem experiência em desenvolvimento, produção e comercialização. As cooperativas, por sua vez, ajudam a testar se a solução realmente funciona nas condições em que será utilizada. Esse tipo de conexão pode reduzir um problema recorrente em políticas de inovação: tecnologias tecnicamente sofisticadas que não chegam ao usuário final porque foram desenvolvidas sem participação suficiente de quem conhece o problema cotidiano.
Para a agricultura familiar, a mudança potencial é igualmente significativa. A tecnologia deixa de ser apresentada apenas como um pacote pronto comprado de fornecedores e passa a ser tratada como uma ferramenta que pode ser construída a partir de necessidades específicas. Isso pode favorecer produtividade, conservação de alimentos, eficiência energética, agregação de valor e aproveitamento de resíduos, embora os resultados concretos ainda dependam dos projetos selecionados e de sua implementação. O próprio caráter competitivo dos editais significa que o anúncio de recursos não representa, por si só, a transformação imediata de todas as propriedades participantes.
A iniciativa anunciada em setembro mostra, porém, uma direção relevante para o Brasil do amanhã: inovação não precisa estar restrita à inteligência artificial, aos grandes centros tecnológicos ou às empresas de software. Ela também pode surgir de um equipamento agrícola mais eficiente, de uma solução que diminui o desperdício ou de uma tecnologia desenvolvida conjuntamente por pesquisadores e agricultores. Ao colocar cooperativas no centro da construção das soluções, o programa cria uma oportunidade para aproximar ciência, indústria e produção rural. Se os projetos conseguirem transformar financiamento em tecnologias acessíveis e aplicáveis, a inovação poderá deixar de ser apenas uma promessa de futuro e passar a fazer parte da infraestrutura cotidiana de uma parcela maior do campo brasileiro.
Fontes consultadas: Finep — anúncio dos R$ 220 milhões para inovação em cooperativas de agricultura familiar · Finep — página oficial de notícias e chamadas de inovação

