Yuri Silva Portela, pós-graduado em geriatria, esclarece que a síndrome de má absorção intestinal é uma das condições mais subestimadas na avaliação clínica do idoso que perde peso sem motivo aparente, que apresenta deficiências nutricionais persistentes apesar de uma alimentação aparentemente adequada ou que convive com diarreia crônica que nunca foi adequadamente investigada. O intestino envelhecido é menos eficiente do que o jovem em absorver nutrientes, mas, quando essa ineficiência ultrapassa certos limites, está em curso um processo com consequências clínicas graves que merecem diagnóstico e tratamento específicos.
Entender o que é a má absorção intestinal, por que ela acomete idosos com frequência crescente e o que pode ser feito para reverter ou controlar esse processo é o objetivo deste guia. Acompanhe para descobrir o que está por trás do idoso que come, mas não se nutre.
O que é a síndrome de má absorção e como ela se instala no idoso?
A síndrome de má absorção é um conjunto de condições em que o intestino delgado não consegue absorver adequadamente um ou mais nutrientes essenciais, sejam gorduras, proteínas, carboidratos, vitaminas ou minerais. Essa falha absortiva pode ter origem na própria mucosa intestinal, que pode estar inflamada, atrofiada ou danificada, na insuficiência de enzimas digestivas necessárias para processar os nutrientes antes da absorção, ou na alteração da flora intestinal que interfere com os processos digestivos normais.
Como detalha Yuri Silva Portela, o envelhecimento favorece a má absorção por múltiplos mecanismos: a produção de ácido gástrico reduz com a idade, comprometendo a digestão inicial de proteínas e a absorção de minerais como ferro, cálcio e vitamina B12. Além disso, a motilidade intestinal diminui, aumentando o tempo de trânsito e favorecendo o crescimento excessivo de bactérias no intestino delgado, condição denominada SIBO, que é significativamente mais prevalente em idosos e que compromete a absorção de múltiplos nutrientes simultaneamente.
Como a má absorção se manifesta no idoso e por que passa despercebida?
A síndrome de má absorção no idoso raramente se apresenta com os sintomas clássicos descritos nos livros de medicina, como diarreia volumosa com fezes gordurosas e odor intenso. Com muito mais frequência, ela se manifesta de forma insidiosa: perda de peso gradual que o idoso e a família atribuem ao envelhecimento, fraqueza e fadiga que parecem normais para a idade, anemia que não responde ao tratamento convencional com ferro oral, osteoporose que avança apesar da suplementação de cálcio e vitamina D, e deficiências de vitaminas do complexo B que produzem alterações neurológicas sutis confundidas com demência.

Na perspectiva de Yuri Silva Portela, essa apresentação atípica explica por que a má absorção permanece sem diagnóstico por meses ou anos em muitos idosos, cujos sintomas são sistematicamente atribuídos ao envelhecimento normal, enquanto o processo subjacente continua comprometendo progressivamente a nutrição e a saúde geral. Diante desse cenário, a investigação sistemática deve ser considerada em todo idoso com perda de peso não intencional, deficiências nutricionais persistentes ou diarreia crônica sem causa identificada.
Causas tratáveis que precisam ser investigadas
Entre as causas de má absorção com maior prevalência no idoso e com tratamento disponível, a doença celíaca de diagnóstico tardio merece destaque por sua frequência subestimada. A insuficiência pancreática exócrina, em que o pâncreas não produz enzimas digestivas suficientes, é outra causa tratável com reposição enzimática que produz resultados expressivos quando diagnosticada. A SIBO, crescimento bacteriano excessivo no intestino delgado, responde bem a ciclos de antibióticos específicos. A doença de Crohn e outras doenças inflamatórias intestinais podem ter início ou exacerbação na terceira idade.
Conforme aponta Yuri Silva Portela, o diagnóstico diferencial da má absorção no idoso exige uma combinação de exames laboratoriais, como dosagem de vitaminas, proteínas totais e albumina, com exames funcionais e de imagem que avaliam a estrutura e a função do trato digestivo. Essa investigação, embora mais trabalhosa do que simplesmente suplementar os nutrientes deficientes, é o único caminho para tratar a causa e não apenas os sintomas de um processo que continuará comprometendo a nutrição enquanto não for identificado.
O que pode ser feito para melhorar a absorção intestinal?
O tratamento da má absorção depende de sua causa específica, mas algumas medidas têm benefícios transversais, independentemente da etiologia. A reposição dos nutrientes deficientes por via parenteral ou sublingual, contornando o intestino comprometido, oferece alívio imediato das deficiências mais graves. Outra estratégia consiste na adaptação da dieta para formatos de mais fácil absorção, como proteínas hidrolisadas e gorduras de cadeia média, reduzindo a carga sobre um intestino com capacidade digestiva comprometida.
Yuri Silva Portela reforça que o idoso que come bem, mas definha, precisa de investigação, não de conselhos para comer mais. A síndrome de má absorção é um diagnóstico que a medicina geriátrica precisa considerar com muito mais frequência do que habitualmente faz, porque é também um diagnóstico com tratamento real e com potencial de reverter um declínio que parecia inevitável.

